Captulo 13

LIGAO AFETIVA 
Uma das reas de pesquisa mais recentes em Psicologia do Desenvolvimento  a formao do 
attachment ou ligao afetiva. A formao das primeiras relaes entre a me e o beb, 
prottipos de todas as relaes sociais futuras, tem sido objeto de interesse h muito tempo, 
especialmente por parte de psicanalistas e behavioristas. Quando dizemos que esta  uma rea de 
pesquisa recente, estamos nos referindo  novidade do enfoque que se tornou proeminente nos 
ltimos anos, no estudo das relaes me-beb, e que tem sido chamado nas publicaes inglesas e 
norte-americanas de estudos de attachment, que estamos traduzindo por ligao afetiva que se 
refere ao vnculo que uma pessoa ou animal forma com outro indivduo especfico. A fim de se 
compreender melhor em que aspecto o enfoque dos pesquisadores que estudam a ligao afetiva 
constitui uma contribuio nova, precisamos examinar o contexto em que evolui o estudo da 
formao das relaes me-beb. Ainsworth (1969), em excelente reviso dos vrios enfoques 
tericos sobre este assunto, discute trs construtos centrais: Relaes de objeto, Dependncia e 
Ligao afetiva. Embora intimamente ligados, esses trs conceitos no so sinnimos e cada um 
est ligado a uma formulao terica. 
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293 
1) Relaes de objeto: O conceito origina-se da teoria psicanaltica e neopsicanaltica de instintos. Como 
vimos no captulo 4, Freud considerava quatro propriedades dos instintos: 
a fonte, o objetivo, o objeto e o mpeto. O objeto pode ser varivel e sujeito a influncias ambientais (Freud, 
1914, traduo inglesa de 1957, p. 122-123). Em 1905 (traduo inglesa de 1953), Freud especificou que o objeto 
de amor da criana  o seio da me e referiu-se  primeira relao de suco como o prottipo de todas as 
relaes de amor. Em 1938, Freud reiterou a importncia da me como 
nica, sem paralelo, estabelecida inalteravelmente para toda a vida como o objeto de amor mais forte e o 
prottipo de tods as relaes de amor (1938, p. 188-189). 
Mas Freud introduz aqui um novo conceito, um tanto contraditrio, quando afirma: 
A fundao filogentica  to prepotente... sobre a experincia acidental, que no faz nenhuma diferena se 
a criana realmente mamou no seio ou foi criada com mamadeira e nunca experimentou a ternura do 
cuidado materno. Em ambos os casos, o desenvolvimento da criana segue o mesmo caminho; pode ser que 
no segundo caso a necessidade da criana fique maior ainda (1938, p. 188-189). 
Essas inconsistncias na posio de Freud deixaram lugar para divises tericas subseqentes. Uma das 
correntes, chamada de Psicologia do Ego, incorpora a nfase que Freud colocou na labilidade do objeto e em 
sua noo de que o beb adquire a me como objeto atravs de sua dependncia dela para a gratificao de 
suas necessidades. Este grupo de teoristas considera as relaes de objeto como ligadas s funes do ego e 
dependendo da aquisio de estruturas cognitivas. Os principais nomes desta corrente que podemos citar 
aqui, considerando principalmente sua posio sobre o problema de relaes de objeto so Escalona (1953), 
Anna Freud (1946, 1952, 1954, 1965), Spitz (1957, 1959, 1965a, 1965b). 
Como tambm foi visto no captulo 4, a Psicologia do Ego considera o desenvolvimento das relaes de objeto 
como passando por trs estgios: 
1) Indiferenciado, narcisstico, ou sem objeto. 
2) De transio. 
3) De verdadeiras relaes de objeto. 
Os estgios propostos por Loevinger e Erikson tam bm so ilustrativos do enfoque que a Psicologia do Ego 
assume quanto s relaes me-beb. A outra corrente psicanaltica, conhecida como relaes objetais, 
originou-se da escola hngara de psicanlise,, liderada por Ferenczi, e se caracteriza por recusar o conceito de 
narcisismo e afirmar que h verdadeiras relaes de objeto desde o incio. Esta tradio, mais influente na 
Inglaterra do que nos Estados Unidos (onde a Psicologia do Ego  a mais aceita), tem como representantes 
principais Melanie Klein (1952), Winnicott (1948, 1953, 1960) e Fairbairn (1952). Embora esta corrente enfatize 
as relaes objetais, em oposio  reduo de necessidades bsicas como a fome, como nota muito 
perspicazmente Ainsworth (1969), a posio de M. Klein  ainda muito ligada  reduo de impulsos 
instintivos: 
Melanie Klein (1952) descreveu bebs que, com trs semanas de vida apenas, interrompiam a suco para 
olhar o rosto da me, ou com talvez duas semanas mais respondiam  voz e sorriso da me com uma 
mudana de expresso facial, indicando que a gratificao est to relacionada ao objeto que d a li m e 
n t o como com o prprio alimento 
(M. Klein, 1952, p. 239). No entanto, sua descrio terica do perodo inicial de desenvolvimento  
dominada por temas de alimento, oralidade e o seio. A primeira relao de objeto do beb  com o seio  
amado e odiado, bom e mau . Ela acreditava que o beb tem um impulso inato para o seio: 
O recm-nascido inconscientemente sente que um objeto de nica bondade existe, do qual a gratificao 
mxima pode ser obtida, e que este objeto  o seio materno (M. Klein, 1952, p. 265) (Ainsworth, 1969, p. 
978). 
2) Dependncia: A dependncia  o segundo construto discutido por Ainsworth (1969) e representa a 
contribuio da teoria de aprendizagem social ao estudo do desenvolvimento das relaes sociais. Grande 
parte dos estudos sobre dependncia so discutidos no captulo 12. Vimos que h uma diviso terica entre 
aqueles autores que consideram dependncia como um drive adquirido, ou seja, como um construto 
motivacional, seguindo um modelo hulliano de aprendizagem (Dollard e MilIer, 1950; Sears e seus 
colaboradores, 1953, 1957, 1963, 1965; e Beiler, 1955, 1957, 1959). Esta posio, seguindo a inteno original de 
traduzir conceitos psicanalticos em termos de teorias de aprendizagem,  bastante prxima  de Freud, pois 
assim como Freud enfatiza a im 294 
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portncia da fase oral e da reduo da fome na formao das relaes entre a me e o beb, os 
autores acima mencionados supuseram que a criana vem a gostar da me (estmulo inicialmente 
neutro) porque esta fica associada com o leite e a reduo da fome (condicionamento clssico). 
Como exemplo dessa posio citamos Sears et alii (1957): 
A longo prazo, a criana parece desenvolver uma necessidade pelos aspectos circunstanciais (as 
circunstncias que envolvem o alimento: a me falando, abraando, sorrindo) que  separada da 
necessidade de alimento. Estes aspectos circunstanciais tornam-se recompensas para ela, objetos e 
situaes amados e desejados, que ela lutar para obter (p. 14-15). 
Belier (1955) apresenta uma explicao detalhada e explcita de como o motivo de dependncia  
adquirido: 
A me e seu comportamento constituem uma situao estimuladora complexa para o beb. Certos aspectos 
da situao provavelmente ocorrem regular e repetidamente quando a criana experiencia reduo de 
drive, e, portanto, vo adquirir valor reforador por associao. Por exemplo, o beb experiencia contacto 
fsico com a me, enquanto tambm experiencia a reduo de drive de fome, atravs da ingesto de 
alimento. Assim, o contacto fsico com a me e mais tarde com outras pessoas em geral adquire 
propriedades semelhantes s do alimento. Exatamente como no caso da fome e sede, a criana 
eventualmente manifestar vrios tipos de comportamento que sero terminados por mero contacto fsico 
com a me. Inversamente, quando tais com portamentos no conduzem ao contacto fsico, aparece a 
frustrao. Quando isto ocorre pode-se dizer que a criana desenvolveu um drive secundrio de contacto 
fsico. Em segundo lugar,  medida que o aparelho sensorial da criana se desenvolve e ela no precisa 
mais ficar no colo para ser alimentada, a proximidade aos pais adquire propriedades semelhantes s do 
contacto fsico (p. 25). 
Atualmente, a maioria dos tericos de aprendizagem social considera a dependncia como um rtulo 
para certos tipos de comportamentos aprendidos e no como um drive secundrio. Entre os 
representantes mais importantes dessa linha, mais ligada ao condicionamento operante, podemos 
citar Gewirtz (1969) e Bijou e Baer (1965). O conceito central para estes teoristas  o de estmulo 
reforador, que  
qualquer evento estimulador que se segue a uma resposta e afeta alguns de seus aspectos, por exemplo, taxa 
de emisso, amplitude ou latncia (Gewirtz, 1956). 
Segundo Bijou e Baer (1965): 
A funo essencial da me  fornecer reforos positivos  criana e remover os reforos negativos... Fazendo 
isso... a prpria me, como um objeto-estmulo, torna-se discriminativa.., para os dois processos de 
reforamento que fortalecem o comportamento operante. Desta forma, ela adquire uma funo de reforador 
positivo, e estabelece o fundamento para o desenvolvimento social posterior de seu beb 
(1965, p. 123-124). 
O enfoque etolgico: a ligao afetiva. O enfoque etolgico est associado primordialmente com o nome de 
John 
Bowlby, que iniciou seus trabalhos dentro de uma perspectiva psicanaltica, na tradio da escola inglesa de 
relaes objetais, mas que gradualmente desenvolveu uma posio bastante diferente, influenciado pela 
etologia (Lorenz, Tinbergen) e pela psicologia comparada (especialmente os trabalhos de Harlow (1958). Como 
influncia da etologia, vemos que o ponto central da posio de Bowlby  que o comportamento de ligao 
afetiva tem um fundamento biolgico, que s pode ser compreendido dentro de um contexto evolutivo (no 
sentido da teoria de evoluo das espcies). 
A tese bsica de Bowlby, proposta em 1958,  que a ligao da criana  me origina-se de vrios sistemas de 
comportamentos especficos  espcie, relativamente independentes uns dos outros no incio, que surgem em 
pocas diferentes e organizam-se em torno da figura da me como objeto principal. Estes sistemas de 
comportamento so: sugar, agarrar-se, seguir, chorar e sorrir. Numa formulao mais recente, Bowlby (1969) 
mantm a importncia desses cinco sistemas, mas introduz a idia de sistemas de controle. A posio de 
Bowlby revive de maneira mais sofisticada a noo de controle instintivo, se bem que ele considere os 
sistemas de comportamento caractersticos da espcie de maneira mais ampla e flexvel do que os antigos 
psiclogos instintivistas. Da psicologia comparada, Bowlby foi influenciado principalmente pelos trabalhos de 
Harlow (1958) e seus colaboradores (Harlow e Zimmerman, 1959). Uma das contribuies mais conhecidas do 
trabalho de Harlow 
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com primatas so seus estudos sobre a importncia da varivel contacto-conforto (Harlow, 1970). Criando 
macacos com mes substitutas, de pano ou de arame, Harlow notou uma srie de efeitos importantes, entre os 
quais o fato de que os macacos preferem a me de pano  me de arame, mesmo se a de arame d leite e a de 
pano no; que macacos criados com a me de pano tm um desenvolvimento emocional adequado ao passo 
que com a me de arame isto no acontece; que em situaes de medo diante de estmulos novos, os macacos 
correm a se abraar  me de pano e depois voltam a explorar os estmulos ou ambientes novos, ao passo que a 
me de arame no tem esse efeito de dar segurana. Uma das concluses importantes dos estudos de Harlow  
a de que a alimentao no  to crucial quanto o contacto fsico com o corpo da me. Comentando a respeito 
da nfase dada pela teoria psicanaltica  oralidade e a respeito da explicao behaviorista de que a me 
adquire propriedades reforadoras por vir associada com o leite, Harlow (1974) diz: 
Esta foi a nica vez em que psicanalistas e behavioristas disseram a mesma coisa sobre um assunto e 
estavam errados! 
A necessidade primria de contacto fsico de que fala Harlow est bem prxima a pelo menos um dos sistemas 
de comportamento de que fala Bowlby: agarrar-se  me. Podemos dizer que a posio etolgica de Bowlby  
provavelmente a mais aceita entre os pesquisadores da formao da ligao afetiva me-beb, que no  mais 
vista como subsidiria  experincia de alimentao como propuseram psicanalistas e behavioristas. 
Do ponto de vista evolutivo, Bowlby distingue as seguintes fases no desenvolvimento da ligao afetiva: 
1) Orientao e sinais sem discriminao de figura. (Apesar de no ser capaz de discriminar uma 
pessoa de outra nas pilmeiras semanas de vida, o beb se comporta de maneiras tpicas em relao a pessoas: 
orientando-se em direo a elas, acompanhando com os olhos, sorrindo, estendendo as mos e parando de 
chorar quando v um rosto). 
2) Orientao e sinais dirigidos a uma ou mais figuras. (Aqui 
o beb ainda se orienta de maneira amigvel em relao a 
pessoas, mas o faz de maneira mais acentuada com relao 
 me). 
3) Manuteno de proximidade a uma figura discriminada por meio de locomoo e sinais. 
(Nesta fase em que j se locomove, o attachment  mais evidente, pois o beb segue, engatinhando, 
atrs, ou agarra-se  me). 
4) Formao de uma relao recproca. (Aqui o beb no s ajusta seu comportamento ao da 
me, mas tambm altera o comportamento da me em relao a ele). 
Bowlby afirma que a tendncia do beb  de ligar-se mais fortemente a uma figura (monotropia), 
mas facilmente se liga a outras figuras e mesmo a companheiros de idade. 
Alm de reviver a noo de que a ligao me-beb tem fundamentos biolgicos e mesmo 
instintivos no sentido amplo, o enfoque etolgico caracteriza-se por uma metodologia de pesquisa 
tpica em que se enfatizam a observao natural controlada e estudos longitudinais. Outra 
caracterstica desse enfoque  a nfase no estudo do comportamento do beb per se, aqui e agora, 
ao invs da preocupao tradicional de verificar efeitos de interao me-beb sobre a 
personalidade da criana mais velha e do adulto. Outro investigador que se tem destacado na linha 
iniciada por Bowlby  Biurton Jones (1972), que est conduzindo estudos longitudinais sobre o 
problema de ligao afetiva. 
O enfoque etolgico tem gerado grande nmero de pesquisas e contribudo para aperfeioar 
tcnicas de observao. Mencionamos a seguir os resultados de algumas pesquisas, detendo-nos em 
detalhes de algumas delas como ilustrao da metodologia utilizada. 
Dois fenmenos bastante estudados pelos pesquisadores da ligao afetiva so os chamados 
ansiedade de separao e ansiedade em relao a estranhos (Bowlby, 1973). Uma vez que a 
ligao afetiva esteja fortemente estabelecida, mais ou menos por volta do oitavo ms de vida, o 
beb comea a manifestar ansiedade (protestos, choro) quando a me se ausenta e comea a 
estranhar, ou seja, a mostrar medo em relao a estranhos. 
Uma das pesquisas mais interessantes sobre ansiedade de separao e ansiedade em relao a 
estranhos, que ilustra a tendncia atual de se estudar a relao me-beb atravs de observaes 
controladas e tambm o interesse na interao 
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aqui e agora, sem preocupao com repercusses futuras  o estudo de Ainsworth e BeIl (1970), que 
descrevemos em linhas gerais a seguir: Foram estudadas 56 crianas brancas, de classe mdia, entre 49 e 51 
semanas de idade. Estas crianas foram colocadas em situaes eliciadoras de reaes de ansiedade de 
separao e ansiedade de estranhos. Estas situaes tiveram lugar em uma sala experimental, mobiliada, porm, 
de tal forma que havia um espao de 3 m X 3 m livre, traado com 16 quadrados, para facilitar o registro de local 
e de locomoo do beb. Em um canto da sala havia uma cadeira, com muitos brinquedos em cima e em volta. 
Perto de outro canto havia uma cadeira para a me, e no canto oposto, uma cadeira para a estranha. O beb 
era colocado no meio da base do tringulo formado pelas trs cadeiras e ficava livre para se locomover para 
onde quisesse. Tanto a me quanto a estranha eram instrudas quanto ao que deveriam fazer. A situao 
consistia de oito episdios que podem ser resumidos da seguinte maneira: 
Episdio 1  (M,B,O): A me (M), acompanhada por um observador (O), entra com o beb (B) na sala e o 
observador sai. 
Episdio 2  (M,B): M coloca o beb no lugar especificado e senta-se na sua cadeira, participando apenas se 
B procura sua ateno. 
Episdio 3  (E,M,B): Uma estranha (E) entra, senta-se quieta por um minuto, conversa com M por um minuto, 
gradualmente aproxima-se de B, mostrando-lhe um brinquedo. Ao final do terceiro minuto, M deixa a sala 
discretamente. 
Episdio 4  (E,B): Se B brinca satisfeito, E no participa ativamente. Se B fica inativo, ela tenta interess-lo 
nos brinquedos. Se B manifesta perturbao, E tenta distra-lo ou confort-lo. Se B no se conforma, o 
episdio termina mais cedo, do contrrio dura trs minutos. 
Episdio 5  (M,B): M entra, pra na porta, para dar a B a oportunidade de responder espontanearnente a 
sua presena. E sai discretamente. Depois de B se engajar novamente com os brinquedos, a me sai, dizendo 
bye-bye . (Durao indeterminada). 
Episdio 6  (B sozinho): B  deixado a ss por trs minutos, a no ser que fique perturbado demais, caso em 
que se termina o episdio mais cedo. 
Episdio 7  (E,B): E entra e comporta-se como no Episdio 4, por trs minutos. 
Episdio 8  M retorna: E sai e a situao  terminada depois que este episdio de reunio  observado 
(Ainsworth 
1969, p. 54). 
O comportamento dos bebs foi observado atravs de espelho unilateral por dois observadores que ditavam 
narrativas contnuas em um gravador que tambm registrava o dique de um marcador de tempo a cada 15 
segundos. As variveis dependentes, cuidadosamente registradas, foram vrias: freqncia de locomoo, 
manipulao, explorao visual e choro; intensidade de comportamentos de procura de proximidade e 
contacto, manuteno de contacto, esquiva de proximidade e de interao. Os resultados principais foram os 
seguintes: Os comportamentos exploratrios (locomoo, manipulao e explorao visual) diminuram de 
freqncia do episdio 2 (M,B) para o 3 (E,M,B), e no atingiram o mesmo nvel que em 2 nos episdios 
posteriores. O choro teve a freqncia mais alta no episdio 6, em que B ficou sozinho, mais alta mesmo do que 
no episdio 4, em que B ficou com a estranha. A reapario de E no episdio 7 diminuiu um pouco o choro. 
Comportamentos de procurar proximidade e contacto e manter contacto foram mais intensos no episdio 5 
(M,B) e 8 (M,B), isto , quando o beb velta a estar com a me, depois de ter ficado a ss com a estranha. A 
resistncia ao contacto com a me ocorreu nos episdios 5 e 8, para aproximadamente 500/o dos bebs, e isto 
foi interpretado como reao de raiva e ambivalncia em relao  me, por esta o ter deixado. Em resumo, 
confirmou-se que a presena da me facilita o comportamento exploratrio e que as separaes da me e as 
respostas indicadoras de ansiedade em relao a estranhos ocorrem nessa faixa de idade estudada. Vrias 
pesquisas mostraram que as reaes a separaes e a estranhos variam muito de situao para situao. Por 
exemplo, reaes de medo de estranhos so menos intensas e menos freqentes em ambientes com que a 
criana est familiarizada do que em ambientes novos; reaes a estranhos so menos intensas quando a me 
est presente (Morgan e Ricciuti, 1969). Tambm foi verificado que uma criana que reage com perturbao 
quando um estranho se aproxima pode, por iniciativa prpria, aproximar-se ela mesma do estranho sem 
manifestar medo. 
Yarrow (1967) distingue vrios nveis de respostas diferenciadas  me e a estranhos. Nos primeiros tempos, 
por volta de trs meses, o beb mostra que discrimina entre a me e o estranho por meio de intensa 
concentrao visual no estranho, ou ignorando o estranho e concentrando a ateno visual na me. Esta 
diferenciao relativamente passiva entre me e estranhos no apresenta manifestaes de afeto negativo. J 
por 
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volta de cinco meses, os bebs geralmente manifestam inquietude, fazendo caretas, chorando, ou tentando 
afastar-se do estranho. O mximo de comportamento negativo em relao a estranhos ocorre por volta de oito 
meses, mas mesmo nessa idade os bebs que abertamente manifestaram ansiedade em relao a estranhos 
constituram menos de 500/o da amostra estudada. Yarrow (1967) tambm relata que h grande variabilidade na 
intensidade da reao em todas as idades. Outras pesquisas, como as de Tennes e Lampl (1964), Tulkin (1971), 
indicaram que a intensidade e tipo de resposta  separao so tambm influenciados pelas condies 
ambientais. 
Vrias explicaes tericas tm sido apresentadas para os fenmenos de ansiedade de separao e ansiedade 
em relao a estranhos. Basicamente, as explicaes mais aceitas afirmam que uma vez que o beb desenvolve 
expectativas em relao  me, qualquer violao dessas expectativas, tais como um estranho, um novo 
ambiente, uma nova bab, pode causar ansiedade. Os trabalhos de Hebb (1946) e de Littenberg, Tulkin e 
Kagan (1971) sugerem que os efeitos das violaes de esquemas estabelecidos depende do grau de 
discrepncia em relao a estmulos conhecidos. Violaes pequenas podem ser estimulantes e levar  
explorao mas violaes grandes podem causar medo. Tambm  interessante notar que a poca em que a 
ansiedade de separao e a ansiedade em relao a estranho3 atingem o auge coincide com a poca em que a 
criana comea a procurar recapturar objetos escondidos, de acordo com as observaes de Piaget (cap. 3). 
Segundo Piaget, esta procura indica que a criana atingiu a noo de permanncia do objeto. 
Outras pesquisas tm investigado fatores que influenciam o desenvolvimento da ligao afetiva. Estudos de 
crianas institucionalizadas indicam que estas crianas geralmente apresentam demora ou ausncia de 
formao de ligaes afetivas e no discriminam entre pessoas estranhas e pessoas que costumam cuidar 
delas (Yarrow, 1961). A partir desses estudos e de outros, Yarrow (1972) infere que uma pessoa estvel que 
cuida da criana e d ateno individualizada  essencial  formao da ligao afetiva. Yarrow (1967) afirma, 
porm, que o cuidado de crianas em grupo, por si, no resulta necessariamente em ausncia ou demora na 
formao da ligao afetiva. Bebs de seis meses, que passavam perodos longos em creches, no revelaram 
diferenas, aos 30 meses de idade, de crian a 
criadas em casa (Caldwell, Wright, Honing e Tannenbaum, 1970). Observaes de crianas criadas 
nos kibbutzim em Israel, onde a maior parte dos cuidados de rotina esto a cargo da metapelet, 
indicam que estas so as principais figuras de attachment (Spiro, 1958). As pesquisas de Schaffer e 
Emerson (1964a) indicam que compartilhar o cuidado da criana com outras pessoas da famlia no 
influencia a emergncia nem a intensidade da ligao afetiva. Assim, parece que uma relao 
exclusiva me-criana no  essencial, porm, mesmo quando o cuidado da criana  dividido com 
outras pessoas, h sempre uma pessoa que predomina e que tem uma relao especial com a 
criana. 
Yarrow (1972) relata tambm que a ligao afetiva parece depender do grau de responsabilidade da 
me. Crianas que mostram ligao afetiva intensa aos 18 meses tipicamente tm mes que 
respondiam dentro de poucos segundos ao choro do beb (Schaffer e Emerson, 1964a). Ainsworth, 
Beli e Stayton (1972) estudaram 23 pares de mes-bebs. A caracterstica da me que se revelou 
mais significante no desenvolvimento da ligao afetiva foi sua sensibilidade aos sinais emitidos pelo 
beb, sensibilidade em notar os sinais, interpret-los corretamente e responder pronta e 
adequadamente. 
Outro fator importante segundo Schaffer e Emerson (1964a)  o nvel de estimulao. As mes dos 
bebs com ligao afetiva intensa geralmente interagiam socialmente mais com o beb, falando, 
brincando com ele, levando-o a passear do que as mes dos bebs com ligao afetiva fraca. 
Caldwell et alii (1970) tambm encontraram correlaes significantes entre medidas de ligao 
afetiva aos 30 meses e escores no Home Stimulation Inventory. 
O desenvolvimento da ligao afetiva tambm  afetado por caractersticas das crianas. BelI 
(1968) comenta que a psicologia apenas comeou a considerar a contribuio da criana para a 
interao pais-criana e que a era de culpar as mes est terminando. Uma das pesquisas mais 
interessantes neste sentido  a de Schaffer e Emerson (1964b) que distinguiram entre cuddlers 
(bebs que gostam de contacto fsico) e noncuddlers (bebs que rejeitam contacto fsico, no 
gostando de colo ou de ser agarrado e preferindo relacionar-se visual ou auditivamente com a me): 
trao que parece ser inato. Schaffer e Emerson verificaram que, aos 12 meses, os cuddlers 
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manifestavam maior ligao afetiva  me do aue os noncudd lers, mas que aos 18 meses no se 
notavam diferenas em intensidade da ligao. 
Outra caracterstica mais geral que pode afetar a ligao afetiva  o sexo da criana. H alguma 
evidncia de que meninas so mais precoces quanto  manifestao dos comportamentos de ligao 
afetiva, tais como reaes a estranhos (Robson, Pedersen e Moss, 1969). Beil e Costello (1964) 
relatam que meninas so mais sensveis  estimulao ttil. Brooks e Lewis (1974) relatam um 
estudo interessante sobre diferenas de sexo em que gmeos de sexo oposto foram estudados, com 
relao  ligao afetiva  me. Como notam os autores, em todos os estudos que relatam 
diferenas de sexo, seja em comportamento do beb em relao  me, seja da me em relao ao 
beb, utilizaram-se duas amostras diferentes de dades me-beb: uma consistindo de meninos e 
suas mes e outra de meninas e suas mes. Em contraste, neste estudo, os autores estavam 
interessados em verificar se crianas de sexo oposto manifestavam diferentes graus de ligao 
afetiva em relao  mesma me. Uma maneira de observar isto seria observar a me duas vezes, 
uma com um beb de sexo masculino e outra com um beb de sexo feminino. Isto seria 
impraticvel, por duas razes: 1) requereria um estudo longitudinal; 2) a idade do beb seria difcil de 
controlar, e 3) o efeito de ordem de nascimento sobre a interao me-beb seria difcil de controlar. 
Um mtodo melhor envolveria o estudo d gmeos: Criando um beb de sexo masculino e um beb 
de sexo feminino ao mesmo tempo manteria constantes as variveis que mudam com o tempo. A 
hiptese testada foi a de que meninas manifestariam maior ligao afetiva do que seus irmos. A 
idade dos sujeitos variou entre 11,8 e 15,0 meses. Quatorze pares de gmeos eram de raa branca e 
trs pares de raa negra. A amostra era heterognea quanto  classe social. O procedimento 
consistiu basicamente em observar as crianas em uma sala experimental. As variveis medidas 
foram vrias: Comportamentos de ligao afetiva (tocar a me, olhar para a me, vocalizaes 
agradveis dirigidas  me, proximidade da me), brincar com os brinquedos, preferncias por 
determinados brinquedos e nvel de atividade. Os resultados revelaram diferenas de sexo quanto 
aos quatro comportamentos de ligao afetiva: as me- 
ninas apresentando maior durao dos referidos comportamentos. No foram encontradas 
diferenas de sexo nas variveis relativas a padres de brincadeira ou nvel de atividade. 
O experimento de Ainsworth e BelI foi repetido (Biaggio, 1978), tendo-se encontrado resultados 
bastante semelhantes. As nicas discrepncias que vale a pena mencionar referem-se ao fato de 
que os bebs brasileiros pareceram mais perturbados quando deixados sozinhos (Episdio 6) do que 
os americanos, ao passo que estes, mais do que os brasileiros, pareceram perturbados e no 
consolados com a entrada do estranho. Estes resultados foram interpretados em termos de 
diferenas culturais: Os bebs brasileiros de classe mdia, como os da amostra estudada, geralmente 
so cuidados por outras pessoas alm da me: avs, babs, empregadas, e outros parentes, ao passo 
que o beb de classe mdia americana era tipicamente cuidado pela me. Alm disso, como a me 
americana de classe mdia no dispe de empregada, o beb, embora fique com ela,  muito 
deixado a se entreter sozinho com brinquedos, no cercado, no bero, ou diante da televiso, ao passo 
que os brasileiros recebem mais ateno e interao, seja porque a me tem empregada para fazer 
as demais tarefas e pode brincar e passear com o beb, seja porque h a figura da bab ocupando- 
se constantemente do beb. Essas diferenas talvez expliquem por que os bebs brasileiros 
estranhavam menos a pessoa do estranho e por que se perturbavam mais ao serem deixados 
sozinhos. Atualmente, esse padro deve estar se modificando nos Estados Unidos, dadas as 
transformaes sociais (maior nmero de mes trabalhando fora, maior nmero de bebs deixados 
em creches ou outros arranjos que garantem ligaes afetivas mltiplas, ao invs da tradicional 
ligao quase que exclusiva com a me, pressuposta pela teoria inicial da ligao afetiva. Como 
afirmam Howes, Rodning, Galuzzo & Myers (1987. no prelo), Quando as mes vo trabalhar fora 
como o esto fazendo, em nmeros cada vez maiores, a configurao tradicional da famlia  
modificada. O velho padro da me de cuidar da criana e do pai como ganhador do sustento 
transforma-se no de pai e me jogando com seus papis de trabalhar e cuidar da criana, alm de 
haver outras pessoas que cuidam da criana, tais como parentes, babs ou creches. A criana 
adquire portanto pelo menos mais uma ligao significativa alm da me. Essas mudanas ampliam 
e desafiam as teorias tradicionais da ligao afetiva. 
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Os ltimos dez anos de pesquisa baseada nas teorias de ligao afetiva deram apoio  noo de que 
dentro das famlias tradicionais, as primeiras relaes afetivas so importantes para as relaes 
sociais futuras com outras pessoas (Bretherton, 1986). No entanto, discutindo as direes atuais e 
futuras da teoria da ligao afetiva, Bretherton (1986) salienta um srio problema nessa 
generalizao: Pressupe-se que cada criana tem uma nica e/ou mais importante ligao afetiva, 
que  a figura da me, ou que todas as outras ligaes afetivas iniciais tomam a mesma forma. No 
entanto, alguns bebs formam relaes afetivas no-concordantes com a me e o pai (Lamb, 1977), 
com me, pai e metapelet (nos kibutzim de Israel) (Sagi, Lamb, Lewkowicz, Shoham, Divr & Estes, 
1985), e com a me e a atendente de creche ou bab (Colin, 1986; Krentz, 1983). 
De acordo com a teoria da ligao afetiva, a separao da me, devido ao trabalho desta,  
causadora de estresse para o beb e pode perturbar o estabelecimento de relaes afetivas seguras 
e de competncia social futura (Vaughn, Deane & Walters, 1985). No entanto, as pesquisas sobre 
as relaes entre cuidados na infncia, e conseqncias disso,  repleta de resultados contraditrios 
e defeitos metodolgicos. Os resultados vo desde aqueles que relatam que o cuidado fora de casa 
no perturba a formao de ligaes afetivas seguras e pode at promover maior competncia 
social quando a criana chega  pr-escola, at evidncia de que os bebs cuidados fora de casa em 
tempo integral so mais inseguros em suas relaes com as mes do que aqueles que ficam meio-
tempo na creche ou dos que so cuidados em casa pela me (Barglow, Vaughn, & Molitorn, 1987; 
Benn, 1986; Howes & Stewart, 1987). Alguns dos resultados contraditrios podem ser causados por 
problemas de merdidas das variveis. Se, como Main & Weston (1981) sugerem, relaes afetivas 
alternativas e no-concordantes podem compensar as relaes inseguras com a me,  possvel a 
uma criana ser classificada tanto como ligada inseguramente  me e parecer socialmente 
competente no ambiente da creche. Teoricamente, se o ambiente de creche prover atendentes 
estveis e compreensivas, as crianas podem compensar o estresse da separao da me, formando 
ligaes seguras com as atendentes da creche. Se a ligao com a me  desajustada, por exemplo 
no caso de pais que batem ou so hostis, a ligao positiva da criana com uma atendente fornece 
modelos alternativos de 
relaes sociais, e, assim, pode contribuir para o desenvolvimento da competncia. Mesmo se a 
ligao com a me ou com os pais for segura, uma fonte adicional de ligao pode talvez melhorar 
ainda mais o desenvolvimento da competncia. Infelizmente, nem todas as creches so de boa 
qualidade para fornecer alternativas de atendentes estveis e compreensivas. As crianas com 
ligaes seguras com os pais podem ser protegidas dos estresses de atendentes instveis e no-
compreensivas (Erickson, Sroufe, & Egeland, 1985), mas as crianas que tm ligaes inseguras 
com a me ou pai sofrem maiores riscos quando colocadas em creches de m qualidade (Gamble & 
Zigler, 1986). 
Slade (1987) investigou a relao entre a qualidade da ligao afetiva e o desenvolvimento do jogo 
simblico, bem como diferenas nas maneiras pelas quais as mes de crianas seguras e ansiosas se 
envolviam nas brincadeiras. Quinze dades de mes-crianas (sete seguras e oito ansiosas) foram 
filmadas a intervalos regulares, numa situao de brincadeira livre, quando os bebs tinham de 20 a 
28 meses. Os resultados indicaram que as crianas seguras tinham episdios mais longos de jogo 
simblico do que seus companheiros ansiosos. Quando as variveis do jogo simblico foram 
contrastadas, viu-se que as crianas seguras tinham episdios mais longos e um nvel mais alto de 
brincadeira quando as mes estavam ativamente engajadas na brincadeira com elas. Assim, o 
envolvimento da me pareceu ter uma funo facilitadora para as crianas seguras, mas no para as 
ansiosas. Quando conversavam com a experimentadora, as mes das crianas seguras eram mais 
envolvidas com as brincadeiras das crianas e pareciam favorecer as brincadeiras em que elas 
interagiam ativamente com as crianas; em contraste, as mes das crianas ansiosas preferiam a 
participao passiva nas brincadeiras das crianas. 
A discusso acima  suficiente para dar ao leitor uma idia das posies tericas e do tipo de 
pesquisa que tem sido feito a respeito do problema da ligao afetiva.  uma rea de pesquisa 
relativamente nova que tem despertado grande interesse. Parece-nos que os mritos principais 
desses trabalhos consistem na metodologia de observao rigorosa e no estudo direto da relao 
me-beb, ao invs dos estudos retrospectivos muito comuns na dcada de 1950. Estes estudos, 
quase todos de inspirao psicanaltica, geralmente tomavam a criana j 
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crescida ou mesmo o adulto e tentavam correlacionar varivei da personalidade desses indivduos 
com experincias infanti conforme relatadas pelas mes, em questionrios e entrevistas A 
fidedignidade desse tipo de dado retrospectivo  bastantc baixa como criticam Moss (1970) e 
Yarrow, Campbell e Burton (1964), de forma que estes estudos foram de pouca utilidade para 
elucidar relaes entre variveis relativas  interao me- beb e comportamentos posteriores.  
medida que tivermos estudos longitudinais sobre o attachment, alguns desses problemas devero ser 
elucidados; porm, de momento, as pesquisas sobre attachment tm revelado mais a natureza do 
desenvolvimento infantil sem focalizar efeitos a longo prazo de fenmenos como ansiedade de 
separao e ansiedade em relao a estranhos. 
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